Um Segredo


Vou revelar-vos um segredo. No início deste ano, uma amiga lançou-me o desafio de fazer criação de cães! Espantados? Eu também fiquei!

Expliquei-lhe que não fazia sentido nenhum, que já há demasiados cães, demasiados criadores, que estou do outro lado, ou seja, do lado dos que lutam para a diminuição do número de cães…

Ela argumentou que há, e sempre haverá, pessoas que preferem comprar a adoptar e que há falta de bons criadores em Portugal.

Enfim, argumentos para cá e para lá, a conversa acabou com a promessa de que pensaria no assunto até ao final do ano, altura em que tomaria uma decisão.

Na tentativa de cumprir a minha promessa, contactei uma criadora cujo trabalho admiro pelos seus rigorosos critérios em escolher compradores e extremos cuidados com a saúde e socialização dos cães que cria. A Camile teve a gentileza de me dar dois conselhos: primeiro, escolher uma raça; depois, tornar-me especialista nessa raça.

Quando fosse especialista, poderia considerar seriamente criar cães.

Ora, o ano já vai na segunda metade e ainda não consegui dar o primeiro passo: escolher a raça. No entanto, tenho frequentado exposições de cães, lido livros sobre raças e procurado obter o máximo de informações possíveis.

Até agora, concluí que a minha amiga tem razão: há falta de bons criadores. Direi mesmo que há falta de criadores, criadores que sejam dignos desse nome, que sejam profissionais responsáveis, com rigorosos critérios de ética e qualidade.

O que encontro é aquilo que chamo de criadeiros, pessoas que têm um ou mais cães registados no Livro de Origens Português (LOP), que fazem cruzamentos desses cães, que os levam a exposições de modo a obterem prémios de beleza, que vendem as crias sem assinarem um contrato de compra/venda, sem sequer passarem recibo!

Ora, se não existe um contrato, como saber as condições pelas quais o negócio se rege? É impossível! Mas não faz mal, porque não existem condições! Se comprar um cão que venha a padecer de uma doença transmitida geneticamente, azar o meu!

Quanto mais penso no assunto, menos tenho vontade de assumir a tremenda responsabilidade de criar cães. Arriscar a compra de cães procriadores, investir nos exames de saúde, na socialização adequada dos cachorros e, depois, tentar vendê-los a quem me convencer que os irá tratar como merecem. Correr todos estes riscos para, no fim, me aperceber que o preço dos cachorros não é competitivo em relação ao preço de mercado porque os outros criadores não têm os mesmos cuidados médicos, não fazem contrato, não pagam impostos.

Continuarei a pensar no assunto, como me comprometi a fazer, mas duvido muito que alguma vez me venha a tornar criadora de cães!

5 comentários:

FitzLemon disse...

Péssimo desafio!!! Os animais que estao em canis de abate , presos a uma corrente de meio metro, maltratados, nao agradecem de certeza. E lá por as pessoas comprarem animais, nao os invalida de os maltratarem, porem em varandas, irem parar aos canis de abate ou serem abandonados. Enfim fico triste por pensar sequer nessa hipotese. Para mim qualquer criador so tem em mente uma coisa $$$$ e nao me venha dizer que é por amor aos animais ou a raça....

Casa do Pinhal disse...

FritzLemon, compreendo perfeitamente o seu ponto de vista, do mesmo modo que compreendo o ponto de vista da minha amiga, que sente falta de criadores dignos desse nome! Concordo que as pessoas que criam cães o fazem pelo lucro, o que nem estaria mal, se não tivessem tanta avidez em ganhar dinheiro que se esquecem de ter uma postura ética e responsável.
O que me consola é que o Estado, na sua ânsia de cobrar impostos, vai começar a regulamentar esta actividade o que, espero, irá dissuadir muitos de continuarem a fazer criação.

Daisy disse...

É sempre uma questão complicada I. Por um lado, há falta de criadores com "C" grande,idóneos, conscientes e dedicados à criação de exemplares de raça para a melhorar e não só pelos cifrões... resultando disso uma proliferação descontrolada de animais para venda, sem respeitarem sequer as questões éticas e os cruzamentos adequados. Por outro, há imensa gente que quer um cão "puro" de raça e com pedigree e, como muito bem diz o FitzLemon, depois o vai acorrentar, manter fechado num espaço exíguo ou abandonar, num canil ou mesmo na rua, porque apesar da raça e do pedigree, um cão é sempre um cão - dá trabalho, exige atenção e é uma prisão quando se quer ir de férias... por isso, os canis e os albergues estão cheios de cães lindos, de raça e com pedigree, onde são tratados como qualquer rafeiro e são abatidos sem apelo nem agravo, apesar de saudáveis e jovens!

Casa do Pinhal disse...

Eu sei, Daisy, eu sei!
Mas é realmente uma questão complicada. A minha primeira reacção também foi de espanto e recusa total. Depois comreendi o ponto de vista da minha amiga. Ainda noutro dia, numa exposição em que meti conversa com alguns "criadores" uma pessoa (médica veterinária) me veio aconselhar muito confidencialmente a não comprar em Portugal e procurar em Espanha. É claro que não estava realmente interessada em comprar, estava só a "apalpar" o terreno. Mas quantas não são as pessoas que comprar ao primeiro vendedor/criador que lhes aparece?

FitzLemon disse...

Peço desculpa casa do pinhal, mas que tal educar as pessoas para verem o quanto sofrem os caes e gatos só para reproduçao? Os Estados Unidos combate este flagelo, Portugal como vive do pedantismo, quer criar caezinhos de luxo. Parem de olhar para o lucro e comecem a salvar os pobres animais que estao para abate. Os criadores, só tem uma coisa em mente :$$$$. Esses concursos de caes sao deprimentes. Caes que sao tratados como robots,e depois ainda falam mal dos circos. Esses caes tb sao escravos da vaidade dos humanos. O meu cao NUNCA ira reproduzir. E muitas pessoas ja me pediram. mando-as ao canil; há lá muitos parecidos com o meu.!!!

"Sempre que um cão sai das minhas mãos para uma nova família, desejo que o tratem tão bem, ou ainda melhor, que eu. Desejo que compreendam que o cão não entra na suas vidas para os fazer felizes, mas, inversamente, a ideia é eles fazerem feliz o cão."