A vida continua

Tenho recebido mensagens a perguntar pela Spring e pelos outros "meninos" e a pedir fotos, o que agradeço. Infelizmente o meu computador tem tido problemas e ambas as máquinas fotográficas estão avariadas. Por sorte emprestaram-me um computador enquanto o meu vai reparar e ofereceram-me um telemóvel em segunda mão que tira fotos como as que vêem.
A Spring está bem, está na mesma. Ela e os outros já se habituaram ao novo espaço e às novas rotinas e a vida segue calmamente. Lutamos contra o frio com mantas, aquecedores e lareira, ladramos aos carros, camionetas e tratores que passam e, se passa um rebanho de cabras, então ainda ladramos mais!
De manhã, gostamos de aproveitar o sol, quando aparece e, à noite, recolhemos cedo, que o frio aperta.
De vez em quando, damos umas passeatas pelos campos aqui perto e vamos até às aldeias mais próximas, aproveitando para fazer umas compritas.
A vida segue calmamente...
ao Sol da manhã

25ªº. Dia

Hoje, lá pelas oito da noite, completo 25 dias na nova casa. Os cães já se adaptaram e eu também. Já quase não há caixotes para desencaixotar, os móveis estão arrumados nos sítios próprios, os livros estão quase todos nas estantes. O jardim da frente está quase verde, as boxes atrás da casa estão limpas e prontas a serem ocupadas, já queimei um montão de lixo de jardim e já fiz outro monte para queimar… Acho que posso dizer que a primeira parte já está!

A partir de amanhã, vou dedicar-me à parte dois; limpar o terreno da escola de treino e o terreno do fundo, pintar a sala de aulas e substituir os vidros partidos, desalojar dezenas de aranhas e caracóis, retirar os obstáculos estragados e arranjar os que têm arranjo… Tenho trabalho para mais de um mês!

Mas hoje é domingo, dia de descanso. Vou almoçar uma caldeirada a Peniche, passear e ver o mar!

Bom fim-de-semana!

Casa Nova

Cheguei à casa nova na quinta-feira da semana passada, ao cair da noite. Só tive tempo de alimentar os cães (não foi fácil encontrar malgas para servir a ração) e encontrar um saco-cama, antes de cair de cansaço!
De então para cá, tem sido trabalhar, trabalhar e trabalhar. No exteror sempre que o tempo permite, ou dentro de casa, quando chove.
O novo espaço é enorme, lindo e com imensas potencialidades. Infelizmente, tem sido muito descurado e exige muito trabalho até estar plenamente operacional.
A casa é rectangular, virada a poente, com um jardim muito simpático à frente. No lado norte, há algumas árvores, três ou quatro pinheiros e outras tantas árvores de fruto. Nas traseiras, há seis boxes que já estão limpas e prontas a receber hóspedes e um grande corredor óptimo para atirar bolas que alarga no lado sul formando um pátio cimentado onde costumo brincar com os cães. Esse pátio da acesso à escola de treino que, quando estiver pronta, vai ficar uma beleza.
A primeira hóspede chegou na sexta-feira à tarde; a Mel já tinha passado o Natal comigo e foi um prazer recebê-la de novo. No sábado chegou o Bóris, Príncipe Bóris, como lhe chamo, um jovem pastor alemão que só queria brincar e correr e, umas horas mais tarde, a Mel, também conhecida por Miss Simpatia, uma labradora chocolate sempre pronta para a brincadeira.
Todos adoraram a confusão de pessoas a limpar, consertar, transportar caixotes e sacos. Devem ter pensado que era uma espécide de festival da confusão e fizeram questão em contribuir correndo de um lado para o outro e derrubando tudo no caminho!

Ainda não tenho acesso à internet na casa nova pelo que não sei quando poderei voltar aqui. Hoje vim à civilização para preparar o seminário Agressividade e Dominância do Estoril e não poderia deixar de passar para partilhar as últimas novidades. Espero voltar em breve!

O Local do Seminário no Porto

Para aqueles que, como eu, não sabem onde fica a Rua Alves Redor, no Porto, espero que estes mapas ajudem.
Lá nos encontraremos às 10 horas do dia 25!

Os Próximos Seminários - alteração de datas

Por motivos alheios à nossa vontade, o seminário AGRESSIVIDADE E DOMINÂNCIA do ESTORIL teve de ser adiado, o que implica algumas alterações no calendário de formação que passa a ser o seguinte (ainda sujeito a confirmação):

25 e 26 de Setembro: AGRESSIVIDADE E DOMINÂNCIA no Porto,

9 e 10 de Outubro: AGRESSIVIDADE E DOMINÂNCIA no Estorl,...

23 e 24 de Outubro: AGRESSIVIDADE E DOMINÂNCIA PRÁTICO na Areia Branca.Ver mais

As Aranhas

Não compreendo (nem um bocadinho) as pessoas que escolhem uma tarântula como animal de companhia, no entanto, simpatizo com aranhas.
Quando vim morar no campo, apercebi-me que as aranhas são uma constante e vivo bem com isso. Quando encontro uma dentro de casa, o que é frequente, apanho-a com uma pá e vassoura e solto-a na rua, desejando-lhe felicidades e que apanhe muitas moscas e mosquitos.
No que toca às aranhas, a vida no campo parece-me muito atractiva. Ainda mais se a compararmos com a vida na cidade, repleta de baratas, esses bichos nojentos que me fazem correr até esbarrar com uma parede e gritar como uma doida.
Na cidade, se temos a sorte de não encontrar baratas em casa, não podemos evitar encontrá-las nas ruas, mortas durante o dia ou a esgueirarem-se entre os nossos passos à noite.
Voltando às aranhas…
A casa para onde vou morar esteve abandonada o tempo suficiente para ser invadida por dinastias de aranhas que teceram teias e teias, tantas que, todas juntas, eram suficientes para fazer um vestido de noiva, daqueles compridos e com uma grande cauda!
Em tal cenário, não encontrei outra alternativa senão matá-las e limpar os metros e metros de teias…
Não é uma solução com a qual me sinta confortável, sinceramente não, mas o realojamento de dezenas e dezenas de aranhas, no meio de tantas coisas que há a fazer, pareceu-me impossível.
Cheia de sentimentos de culpa por ter causado a morte de tantas aranhas, não estava minimamente preparada para a tarefa que me surgiu a seguir: os caracóis!
Quando fui limpar a zona da escola de treino, deparei-me com dezenas e dezenas, talvez centenas, de caracóis agarrados às paredes, às portas, aos vidros das janelas… e aranhas, também!
Aqui em casa, se encontro um ou outro caracol no pátio, pego nele e atiro-o para o campo onde desejo que tenha uma vida longa e feliz! Mas lá, com tantos caracóis, seria impossível.
Armada com uma vassoura, desalojei-os das paredes e varri-os para um saco de lixo, tento o máximo cuidado para não os pisar.
Sei bem que não havia outra solução, mas tanta mortandade pesa-me na alma, tira-me o sono, acorda-me de madrugada…
Escrevo estas linhas enquanto o sol nasce, desejando encontrar no universo compaixão suficiente para ser perdoada ou um qualquer equilíbrio que me redima de tantas mortes causadas.

Novo Projecto

É com uma enorme alegria que anuncio que a partir de Outubro vou dar início a um novo projecto.
Eu, o Manuel, a Girassol, a Spring e o Talibocas vamos deixar a Casa do Pinhal rumo a novas instalações um pouquinho mais a norte.
Continuaremos a ter vista para o mar e teremos capacidade de receber mais hóspedes caninos.
Além do hotel, vamos ter Escola de Treino e continuar a organizar muitos seminários sobre treino, comportamento canino, nutrição, e muitos outros temas.
Teremos um novo nome e nova imagem, mas a dedicação e o carinho com que recebemos os visitantes serão os mesmos!
Também o blogue se irá manter, por isso, não percam as novidades que se aproximam!
Para já, a palavra de ordem é encaixotar, encaixotar, encaixotar…

Mostre-nos o seu caso - Filme o seu cão


A Casa do Pinhal e a Escola de Treino Canino It´s All About Dogs decidiram organizar um seminário sobre Agressividade e Dominância, exclusivamente prático, para aqueles que já participaram no seminário teórico.
Para este seminário, convidamos pessoas cujos cães tenham problemas de agressividade com outros cães ou em relação a comida e brinquedos a participarem com os seus cães de modo a que possamos demonstrar como estas situações podem ser tratadas e resolvidas.
Uma vez que o número de casos tratados é necessariamente limitado, teremos de fazer uma selecção.
Para se candidatarem, as pessoas interessadas devem filmar uma situação de agressividade e enviar o vídeo para nós por email. Aos pré-seleccionados será, posteriormente, enviado um questionário detalhado.
As candidaturas estão abertas! Não deixem de aproveitar esta oportunidade de resolver os problemas dos vossos cães!

Um Segredo


Vou revelar-vos um segredo. No início deste ano, uma amiga lançou-me o desafio de fazer criação de cães! Espantados? Eu também fiquei!

Expliquei-lhe que não fazia sentido nenhum, que já há demasiados cães, demasiados criadores, que estou do outro lado, ou seja, do lado dos que lutam para a diminuição do número de cães…

Ela argumentou que há, e sempre haverá, pessoas que preferem comprar a adoptar e que há falta de bons criadores em Portugal.

Enfim, argumentos para cá e para lá, a conversa acabou com a promessa de que pensaria no assunto até ao final do ano, altura em que tomaria uma decisão.

Na tentativa de cumprir a minha promessa, contactei uma criadora cujo trabalho admiro pelos seus rigorosos critérios em escolher compradores e extremos cuidados com a saúde e socialização dos cães que cria. A Camile teve a gentileza de me dar dois conselhos: primeiro, escolher uma raça; depois, tornar-me especialista nessa raça.

Quando fosse especialista, poderia considerar seriamente criar cães.

Ora, o ano já vai na segunda metade e ainda não consegui dar o primeiro passo: escolher a raça. No entanto, tenho frequentado exposições de cães, lido livros sobre raças e procurado obter o máximo de informações possíveis.

Até agora, concluí que a minha amiga tem razão: há falta de bons criadores. Direi mesmo que há falta de criadores, criadores que sejam dignos desse nome, que sejam profissionais responsáveis, com rigorosos critérios de ética e qualidade.

O que encontro é aquilo que chamo de criadeiros, pessoas que têm um ou mais cães registados no Livro de Origens Português (LOP), que fazem cruzamentos desses cães, que os levam a exposições de modo a obterem prémios de beleza, que vendem as crias sem assinarem um contrato de compra/venda, sem sequer passarem recibo!

Ora, se não existe um contrato, como saber as condições pelas quais o negócio se rege? É impossível! Mas não faz mal, porque não existem condições! Se comprar um cão que venha a padecer de uma doença transmitida geneticamente, azar o meu!

Quanto mais penso no assunto, menos tenho vontade de assumir a tremenda responsabilidade de criar cães. Arriscar a compra de cães procriadores, investir nos exames de saúde, na socialização adequada dos cachorros e, depois, tentar vendê-los a quem me convencer que os irá tratar como merecem. Correr todos estes riscos para, no fim, me aperceber que o preço dos cachorros não é competitivo em relação ao preço de mercado porque os outros criadores não têm os mesmos cuidados médicos, não fazem contrato, não pagam impostos.

Continuarei a pensar no assunto, como me comprometi a fazer, mas duvido muito que alguma vez me venha a tornar criadora de cães!

Uma história da Margarida Neto

IMAGINEM A FAMÍLIA SALVEDRA: O PAI, ANTÓNIO, A MÃE, ANA E OS 2 FILHOS: A BEATRIZ, DE 9 E O ANDRÉ DE 11 ANOS, RESPECTIVAMENTE. TÊM 1 CÃO, O TEJO E UM GATO, O TOBIAS.

CHEGA AGOSTO, O MÊS DE FÉRIAS DESTA FAMÍLIA, DE CLASSE MÉDIA; DECIDEM IR PARA UM DESTINO EXÓTICO COM BASTANTES MONUMENTOS DE HISTÓRIA PORQUE QUEREM QUE AS CRIANÇAS SE INTERESSEM "AO VIVO" POR ESTA DISCIPLINA : TURQUIA, IRÃO, JORDÂNIA, EGIPTO – QUALQUER DESTES PAÍSES SERVE PARA A NOSSA/VOSSA IMAGINAÇÃO!!
O QUE FAZER AOS ANIMAIS??? OS HOTÉIS SÃO CARÍSSIMOS E SÓ TÊM O DINHEIRO À JUSTA PARA AS FÉRIAS; AS ASSOCIAÇÕES ESTÃO A ABARROTAR E NÃO OS PODEM ACEITAR; OS AMIGOS, CONHECIDOS E FAMILIARES TAMBÉM VÃO DE FÉRIAS...VENDO BEM AS COISAS, O CÃO JÁ ESTÁ UM POUCO VELHO E O GATO TEM A MANIA DE ARRANHAR OS SOFÁS...ENQUANTO AS CRIANÇAS DORMEM, OS PAIS, SAIEM, PELA CALADA DA NOITE, COM O TEJO E O TOBIAS; ANDAM UMAS BOAS DEZENAS DE KILÓMETROS E LARGAM OS ANIMAIS NA BERMA DE UMA ESTRADA DE UMA ALDEIA QUALQUER...
O GATO, COMPLETAMENTE DESORIENTADO, VÊ AO LONGE UMAS LUZES ENORMES QUE O INCANDEIAM E TENTA FUGIR, ATRAVESSANDO A ESTRADA...TRÁAAASSSSSSSSSSSSS...A PANCADA FOI ENORME E MORTAL: O TOBIAS JAZ INERTE NO MEIO DA VIA, SEM VIDA...UM CARRO AFASTA-SE VELOZMENTE, SEM PARAR...

O CASAL SALVEDRA FICA POR UNS INSTANTES SEM REAGIR...DEPOIS AMBOS ENCOLHEM OS OMBROS: UM ASSUNTO JÁ FOI, DE IMEDIATO, RESOLVIDO!! METEM-SE NO CARRO, ENQUANTO O TEJO CORRE DESESPERADAMENTE ATRÁS DELE, LADRANDO AFLITIVAMENTE...ACABA POR PARAR, POUCO DEPOIS, DEITANDO-SE NA BERMA DA ESTRADA, ARFANTE E COMPLETAMENTE SEM FORÇAS ...UIVA BAIXINHO, ENQUANTO VÊ O CARRO DOS SEUS QUERIDOS DONOS AFASTAR-SE CADA VEZ MAIS...

NA MANHÃ SEGUINTE, AS CRIANÇAS DE TÃO ENTUSIASMADAS PELO AROMA DE FÉRIAS E DE BRINCADEIRA, NEM DÃO PELA FALTA DOS AMIGUINHOS DE 4 PATAS, NEM PERGUNTAM POR ELES...E LÁ RUMA, FELIZ E CONTENTE, TODA A FAMÍLIA SALVEDRA, EM DIRECÇÃO AO AEROPORTO...
HORAS DEPOIS, CHEGAM AO DESTINO!! DEPOIS DE INSTALADOS NO HOTEL, COM MALAS E BAGAGENS E DE UMA BOA REFEIÇÃO, VÃO PROCURAR INFORMAÇÕES SOBRE EXCURSÕES LOCAIS...DIZEM-LHES QUE, A POUCAS HORAS DE DISTÂNCIA, HÁ UMA ZONA REMOTA COM RUÍNAS FANTÁSTICAS PARA VEREM E UM LINDO OÁSIS PARA SE REFRESCAREM...FICA TUDO APRAZADO PARA O DIA SEGUINTE!!
NO DIA SEGUINTE, ESTÁ UM CARRO/TÁXI, SUJO E CHEIO DE BATIDAS, À PORTA DO HOTEL, AGUARDANDO OS SALVEDRA; O MOTORISTA, DE ASPECTO BEM MANHOSO, FALA POR GESTOS E LÁ SEGUEM TODOS VIAGEM, ALEGREMENTE...FOTOS PARA AQUI, FOTOS PARA ALI, MÁQUINA DE FILMAR LIGADA, TODOS FALAM, RIEM E APONTAM PORMENORES DA PAISAGEM...
TÃO ENTRETIDOS E DIVERTIDOS VÃO QUE, SÓ QUANDO O CARRO PÁRA BRUSCAMENTE NUM SÍTIO BEM ISOLADO E ERMO E O MOTORISTA LHES APONTA UMA ARMA, VOCIFERANDO NUMA LÍNGUA QUE NÃO ENTENDEM E GESTICULANDO AMEAÇADORAMENTE, É QUE ACORDAM PARA A ASSUSTADORA REALIDADE...GRITAM, PEDEM MISERICÓRIA, ENCOLHEM-SE CHEIOS DE TERROR, AS CRIANÇAS ESCONDEM-SE ATRÁS DO PAI, COMPLETAMENTE EM PÂNICO, A MÃE ESTÁ EM ESTADO DE CHOQUE...
DANDO CORONHADAS, A TORTO E A DIREITO, EM TODOS, O HOMEM TIRA-LHES AS MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS E DE FILMAR, TELEMÓVEIS, A MALA DE ANA ONDE ANTÓNIO TINHA GUARDADO A CARTEIRA E OS DOCUMENTOS; AFASTA AS CRIANÇAS DO PAI E EMPURRA-AS PARA DENTRO DA VIATURA...ANA, FEITA LOUCA, GRITA POS FILHOS E CORRE PARA OS TIRAR DO CARRO, SEGUIDA POR ANTÓNIO...UM MURRO, EM PLENA CARA, DEITA-A POR TERRA E OUVE-SE UM TIRO, SEGUIDO DE UM GRITO SURDO...O CARRO PARTE, A UMA VELOCIDADE LOUCA, COM AS CRIANÇAS, GRITANDO E CHORANDO, ESTENDENDO OS BRAÇOS NUMA TENTATIVA INÚTIL DE ALCANÇAR OS PAIS...

PASSAM-SE LONGOS MINUTOS, TALVEZ HORAS...ANA LEVANTA-SE PENOSAMENTE: A CARA E A BOCA DOEM-LHE HORRIVELMENTE, PELO MENOS, FICOU SEM 3 OU 4 DENTES; ANTÓNIO FOI FERIDO NUMA PERNA E ESTÁ A PERDER SANGUE...APOIADOS UM NO OUTRO, CHORANDO SILENCIOSAMENTE, ARRASADOS PSICOLOGICAMENTE, COMPLETAMENTE PERDIDOS, ARRASTAM-SE, SOB UM CALOR INFERNAL, PELO TRILHO POR ONDE O ASSALTANTE E RAPTOR FUGIU...NÃO SABEM QUANTO TEMPO PASSOU: JÁ É NOITE E ENCONTRAM UMA ALDEIA DE ASPECTO MISERÁVEL...
ESTÃO SEQUIOSOS E ESFOMEADOS...FALAM PARA OS HABITANTES DA ALDEIA QUE OS OLHAM COM AR SINISTRO E DE POUCOS AMIGOS...AS MULHERES, QUASE COMPLETAMENTE TAPADAS, PUXAM A ROUPA E OS CABELOS A ANA, GRITAM-LHE AMEAÇADORAMENTE PALAVRAS QUE ELA NÃO ENTENDE...ELA CHORA, SUPLICA, PERGUNTA PELOS FILHOS...MAS SÓ RECEBE ENCONTRÕES E MAIS PUXÕES DE CABELOS...TALVEZ SEJA POR NÃO ESTAR COBERTA, PENSA ELA...QUANTO MAIS ELA CHORA E GESTICULA, PEDINDO ÁGUA E COMIDA, MAIS OS HOMENS E AS MULHERES DA ALDEIA RIEM E A AGRIDEM...ANTÓNIO PROCURA DEFENDÊ-LA MAS TAMBÉM ELE É AGREDIDO E A PERNA CONTINUA A SANGRAR...

QUANDO SE FARTAM DELES, OS HABITANTES AFASTAM-SE E RECOLHEM ÀS SUAS CASAS QUE MAIS PARECEM RUÍNAS HABITADAS...ANA PROCURA ESTANCAR O SANGUE DA PERNA DE ANTÓNIO COM UM BOCADO DA CAMISA DELE...A TEMPERATURA BAIXA E ARREFECE, DE REPENTE...AMBOS, ENCOLHIDOS, ENCOSTADOS UM AO OUTRO, CHEIOS DE FRIO, NUM CANTO QUALQUER DA ALDEIA, REZAM BAIXINHO, CHORAM OS FILHOS RAPTADOS, DESAPARECIDOS...

A MEIO DA NOITE, SOMBRAS FURTIVAS AFASTAM BRUTALMENTE ANA DE ANTÓNIO; ELE TENTA REAGIR MAS É LOGO MANIETADO E AMORDAÇADO. ANA NEM CONSEGUE TER TEMPO PARA GRITAR PORQUE MÃOS NOJENTAS TAPAM-LHE A BOCA E UMA FACA É ENCOSTADA À SUA GARGANTA...NÃO SABE DIZER QUANTAS VEZES E POR QUANTOS FOI VIOLADA, SÓ DESEJA ESQUECER E TALVEZ MORRER...EMPURRAM-NA PARA JUNTO DO MARIDO E DESAPARECEM NA ESCURIDÃO DA NOITE...
DE MANHÃ, A FOME E A SEDE APERTAM AINDA MAIS...SUJOS, ENSANGUENTADOS, ANDRAJOSOS, NOJENTOS, PROCURAM ALGO PARA COMER E BEBER, ENCOLHIDOS E CHEIO DE TERROR, POR ENTRE AS PESSOAS DA ALDEIA QUE CONTINUAM A AMEAÇÁ-LOS COM OS PUNHOS CERRADOS, LHES COSPEM EM CIMA E OS EMPURRAM, SEM DÓ NEM PIEDADE...ANA E ANTÓNIO FAZEM GESTOS DE HUMILDADE, BAIXAM A CABEÇA,SUBMISSOS E ESTENDEM AS MÃOS, IMPLORANDO COMPAIXÃO...TUDO EM VÃO!!

ANTÓNIO VÊ, ALI PERTO, UM MERCADO NA RUA...PUXA ANA ATÉ LÁ...PEDE AOS COMERCIANTES COMIDA, POR GESTOS MAS TODOS O IGNORAM...DESESPERADO, ROUBA UM PÃO DE UMA BANCADA E FOGE, A COXEAR, COM ANA ATRÁS DELE...NÃO VÃO LONGE: SÃO LOGO RODEADOS POR DEZENAS DE PESSOAS QUE TIRAM FURIOSAMENTE O PÃO DAS MÃOS DE ANTÓNIO E EMPURRAM AMBOS PARA O CENTRO DO CÍRCULO FEITO POR TODOS...SÃO BRANDIDOS FACALHÕES ENORMES; PEGAM NO BRAÇO DE ANTÓNIO, ARRANCAM-LHE O RESTO DA MANGA DA CAMISA E COLOCAM A MÃO DIREITA DELE SOBRE UMA MESA...UMA FACA ENORME É ERGUIDA NO AR...

ENTRETANTO, AS MULHERES RODEIAM ANA E AMARRAM-NA A UM POSTE...PEGAM EM PEDRAS GRANDES E PONTEAGUDAS...

UMA SEMANA DEPOIS, UM AVIÃO REGRESSA A PORTUGAL, PROVENIENTE DE UM DESTINO EXÓTICO, SEM 4 PASSAGEIROS A BORDO...

DEPOIS DE LEREM ESTA HISTÓRIA - QUE PODE SER BEM REAL - ACHAM QUE ELA TEM ALGUMA COISA A VER COM O QUE SE PASSA COM OS ANIMAIS???
NÁAAAAAA, É PURA COINCIDÊNCIA MESMO, FRUTO DA IMAGINAÇÃO MUITO FÉRTIL DESTA AUTORA!!!! ;o)
BEM-HAJAM POR A TEREM LIDO COM ATENÇÃO E POR MEDITAREM, SE POSSÍVEL, SOBRE A MESMA!!!
SE GOSTARAM, PODEM PARTILHÁ-LA E DIVULGÁ-LA, À VONTADE; NÃO SERÃO EXIGIDOS QUAISQUER DIREITOS DE AUTOR!! :))

Dias de Verão

Lamento a falta de notícias mas o meu computador anda semi-avariado, ou seja, trabalha, mas não muito; o que não me tem permitido postar as novidades. Felizmente, uns amigos foram de férias e, na falta de cão, deixaram-me o portátil, o que me permite escrever a contar as últimas.



Agosto é sempre um mês muito movimentado, com muitos cães a entrarem e saírem, e este ano não é excepção.



Tenho a felicidade de conhecer e conviver com cães maravilhosos e sinto-me privilegiada por isso. Cada um reage à sua maneira por se encontrar numa casa estranha, com pessoas e cães estranhos. Uns fazem amizade, outros reagem com medo, uns aceitam apenas companheiros caninos do sexo oposto, outros nem isso…



Todos precisam de um tempo de adaptação, que pode ir de 5 minutos a 5 dias, mas, mesmo os mais assustados e desconfiados, acabam por se adaptar e sentir mais confiantes.



Um exemplo: o Peter, um cão lindíssimo, lindíssimo (a pena que tenho de estar sem máquina fotográfica) ao início recusava-se a entrar na marquise. Dormia no pátio, ao relento, apesar de estar habituado a dormir no quarto dos donos. Com o tempo, com biscoitos e muita persuasão, acabou por se sentir confortável na marquise. Acho que se tivesse passado cá mais tempo, acabaria por entrar no resto da casa!



Outro exemplo: o Paço sentiu-se triste nos primeiros dias que cá passou até que um dia, sem eu saber porquê, mostrou-se alegre e desafiou-me para brincar. Até passou a alimentar-se melhor!



Agora está cá a Rita, uma doce cadelita, muito assustada, que não aceita a companhia dos outros cães, mas aprendeu a gostar de mim e até já me desafia para brincar.



A Girassol, o Manuel, o Talibocas e a Spring vão estando, aceitando melhor ou pior os hóspedes, sobrevivendo ao calor quando ele aperta e estão cada vez mais mimados!

Amor e Carinho

No livro que estou a ler sobre treino, a autora sugere que se faça uma lista com as dez actividades preferidas do cão e que se usem essas actividades como reforço para os comportamentos desejáveis.
Por exemplo, se o cão gosta de correr atrás de uma bola, podemos pedir-lhe que se sente ou ande ao nosso lado sem puxar a trela e, como recompensa, atirar-lhe a bola para ele apanhar.
Explica que os cães que gostam de actividades que envolvam pessoas, como atirar a bola, brincar ao puxa, ser acariciados, são mais fáceis de treinar que os cães que privilegiam actividade que não impliquem interacção humana, como correr, cheirar, roer.
Ando a trabalhar na lista das actividades preferidas da Spring e cheguei á conclusão que a número um é ser acariciada. Como, para isso, ela precisa de mim, deveria ser muito fácil treiná-la. Mas há um problema. Um grande problema. Eu!
Quando a Spring me pede festas (o que é sempre) só quero fazer-lhe festas e abraçá-la. Qual senta? Qual deita? Qual carapuça? O que quero é abraçá-la e beijá-la!
Mando o treino para as urtigas e ficamos muito abraçadas, muito apertadas, muito felizes.
Qual treino qual quê? É só amor e carinho!

Incompreensível



Hoje estive na Exposição Canina de S. João das Lampas.
Quando cheguei lá estava a decorrer uma prova em que participava uma cadela dogue argentino. Via-se que já tinha tido muitas ninhadas pelo tamanho das maminhas.
Fiquei com os olhos fixos nela, a pensar na Spring e vieram-me as lágrimas aos olhos.
Como é possível amar tanto uma cadela?

“When Pigs Fly!”




De Jane Killion é um livro sobre cães e treino de cães, bem-humorado e muito divertido. Ainda só li os três primeiros capítulos e estou a adorar.
A autora tem a rara capacidade de misturar dados muito científicos com questões do dia-a-dia de um modo muito simples e com grande sentido de humor.
O resultado é que a leitura deste livro ora me provoca uma boa gargalhada, ora me explica aquelas coisas que nunca ninguém me tinha explicado.
Um exemplo: estudos neurofisiológicos demonstram que o som do clicker é processado numa parte diferente do cérebro (a amígdala) que as palavras (que são processadas no córtex), o que explica porque é que o treino com clicker resulta melhor que quando é usada uma palavra como marcador.(*)
Quanto a exemplos de boas gargalhadas…leiam o livro, sim?


(*) Pryor num artigo intitulado "The Neurophysiology of Clicker Training".

O Lord foi-se embora ontem.

Quando o Rui o veio buscar ficamos um bocadinho a falar sobre cães em geral e sobre o Lord em particular. Gabei o comportamento do Lord e o Rui contou-me que quando ele era cachorro teve o cuidado de fazer uma socialização activa, ou seja, levava-o a parques e às praias para que ele tivesse contacto com outros cães, com pessoas, com crianças… Também teve o cuidado de o ensinar a andar na trela sem puxar, a sentar sob comando e a largar o que tivesse na boca.
Todos esses cuidados fazem do Lord um cão seguro, apesar do tamanho e da força que tem.
As vantagens de se viver com um cão seguro são inúmeras, podemos levar o cão onde quer que seja e estar tranquilos que ele não irá atacar outros cães ou pessoas, podemos pedir-lhe para se sentar enquanto ficamos na esplanada a ler o jornal, podemos passeá-lo sem trela e por aí fora.
Fiquei contente por ter conversado com o Rui, por ter encontrado uma pessoa com sentido de responsabilidade para com o seu cão. Oxalá toda a gente fosse assim!

Métodos de Treino


Um excelente e esclarecedor artigo sobre dominância, agressividade e os métodos que alguns treinadores usam para lidar com esses comportamentos.

O tempo gasto na preparação é ganho na acção.

momentos felizes

Há muitos, muitos anos, trabalhei numa empresa chamada Dynargie que se dedicava a formação no âmbito empresarial. Num dos muitos seminários da empresa era citada uma frase de que nunca me esqueci: “O tempo gasto na preparação é ganho na acção.”
Não me lembro quem era o autor, nem a que é que ele se referia, mas sei que é uma verdade absoluta em relação ao treino de cães.
Quando se trata de ensinar ou modificar determinado comportamento a um cão não há atalhos possíveis, apenas trabalho, muito trabalho e mais trabalho.
Tudo se consegue, desde que seja fisicamente possível para o cão, até fazer o pino! Eu já vi e tenho testemunhas.
Como já uma vez aqui escrevi, ensinar um cão é como aprender a ler: ao princípio custa muito, à medida que vamos praticando torna-se mais fácil e, no fim fica para toda a vida!

Só sei que nada sei!

um dos participantes no primeiro seminário...

Gosto desta frase, mas reformularia; quanto mais sei mais me apercebo da imensidade do que me falta saber!
Esta é a minha realidade de todos os dias porque todos os dias aprendo algo novo. Aprendo com os cães, com os livros, com os amigos, comigo mesma.
Não se trata de gabarolice; sou profundamente humilde, às vezes até demasiado para me levarem a sério.
O que me espanta, e não consigo para de me espantar, é a confiança que algumas pessoas têm no seu saber de ideias feitas e lugares comuns. Dizem-se as maiores barbaridades com convicção e não se questionam, aceitam-se!É verdadeiramente espantoso e insuportavelmente perigoso! Questionar é absolutamente necessário! Por favor, nunca deixem de o fazer.

Lord, a bola e eu


O Lord é o rottweiller mais lindo que já vi! Para os que se abespinham com esta afirmação, posso acrescentar que não tenho tido muito contacto com rottweillers, para todos os outros vou tentar arranjar fotos!
O Lord tem uma paixão: a bola! O que foi simpático, ao princípio, pois facilitou a nossa relação; eu atirava-lhe a bola, ele ficava feliz e eu também.
Depois o Lord passou a considerar-me uma atiradora de bolas e assim que me via corria para ir buscar a bola para eu atirar. Como apanhar a bola é o máximo ponto da existência do Lord, ele começou a apresentar um comportamento indesejado: chorava e arranhava as portas para vir ter comigo e jogarmos a atirar a bola.
Experimentei trazê-lo para o meu quarto e fazer-lhe festas e companhia. Qual quê? Não parava quieto à procura da bola; é que o jogo, para funcionar, precisa de dois elementos: eu e a bola!
Decidi que precisava mudar o meu comportamento de forma a alterar o comportamento do Lord. Agora estou com ele muitas vezes sem lhe atirar a bola e, quando decido jogar, jogo até ele não poder mais de cansaço. É difícil, mas consigo!
Já noto que o Lord já não chora tanto, nem está tão obcecado em estar comigo, pois já percebeu que eu não significo brincadeira. Felizmente, a minha estratégia está a resultar porque as portas não resistiriam muito mais!

O Oito e o Oitenta


Este blogue nasceu para escrever sobre cães; os cães da Casa e os que por cá passam. Também aqui tenho falado de outros cães, de todos os cães, principalmente os que mais me doem; os esfomeados, acorrentados, infelizes.
Está na altura de falar nos felizes, aqueles a quem nada falta; nem comida, nem conforto, nem companhia. Aqueles que têm algo mais; a coleira a condizer com a trela, os passeios especiais de fim-de-semana, o treino, as festas de aniversário…
A algumas pessoas pode parecer um exagero, mas eu compreendo muito bem. Parece-me natural que as pessoas celebrem a alegria de compartilhar a vida com cães com momentos especiais. O cão pode não compreender o conceito de aniversário, ou do Natal, mas percebe a alegria das pessoas reunidas e aprecia – oh se aprecia! – as guloseimas que lhe dão.
Por isso, quando a Filipa decidiu dedicar-se à confecção de bolos próprios para cães eu fiquei contente. É sinal de que os cães se integram nas celebrações dos humanos e que os humanos celebram a vivência com os cães. Acho que o trabalho da Filipa vai ser um sucesso!

Girassol


Hoje a Girassol foi ao veterinário. Nada de especial a levou lá, foi só fazer umas análises para saber se está tudo bem que a idade não perdoa.
Aproveitou a oportunidade para fazer uma radiografia às patas posteriores porque dá sinal que alguma dor a incomoda. O resultado foi excelente, tomara que fossem todos assim, disse o Dr. Paulo. Não tem sinais de artroses, pelo que a tal dorzita pode ser muscular.
Os resultados das análises devem chegar na sexta-feira, estou confiante que vai estar tudo bem porque esta cadela-flor é uma resistente.

O Cão


Esse animal maravilhoso que se deita aos nossos pés e lambe as nossas mãos


Um cliente disse-me uma frase que nunca mais me esqueci: “cão é cão”! Impressionou-me como a noção dele do que é um cão, ou melhor, de como um cão deve ser tratado, diferia tanto da minha.
Entretanto, tenho usado o meu tempo para descobrir e aprender mais sobre os cães. Descobri que viver com cães, viver dedicada a eles não é suficiente. É preciso aprender mais, assistir a formações, ler livros, pesquisar na internet…
Tenho aprendido muito, o que me ajuda a perceber o quanto mais me falta saber. Já não vou em conversas de saberes feitos, daqueles que me dizem que é assim porque é, porque já o pai e o avô diziam que é assim. Peço explicações, provas, estudos científicos que o demonstrem. Abri a porta do conhecimento e a minha curiosidade é insaciável.
Todas estas novas informações fazem-me questionar as ideias comuns que as pessoas comuns têm sobre os cães. Vivemos com eles toda uma vida, somos companheiros há milénios e não sabemos quase nada sobre a essência dos cães. Aliás, temos todo um conjunto de ideias fabulosas baseadas em histórias de encantar e filmes e séries televisivas que não se prendem com a realidade dos cães, mas sim com um imaginário colectivo.
A senhora Jean Donaldson que escreveu um excelente livro sobre cães, chamado Choque de Culturas, diz, a páginas tantas, que considera perturbante que o valor dos cães seja baseado em mitos e exageros, como se eles não fossem suficientemente bons. Que o seu valor vem do que são realmente, da sua “dogginess” (não consigo traduzir esta expressão). Que os cães valem e são maravilhosos como são.
Pode parecer que estou a exagerar. Talvez esteja. Muitas pessoas vivem felizes com os seus cães e fazem os cães felizes. Podem não saber muito sobre cães, mas amam-nos e são sensíveis às suas necessidades.
Por outro lado, há muitas outras pessoas que decidem ter um cão sem saber nada sobre o que é um cão. Todos sabemos de demasiadas histórias em que esta situação tem um mau resultado. Não é que façam por mal, mas os resultados podem ser realmente catastróficos.
Um exemplo: adopta-se um cão bebé que se viu numa loja ou numa feira de adopções, leva-se o cachorro para casa e, no dia seguinte, sai-se para ir trabalhar. Chega-se a casa ao fim do dia para se descobrir um cenário de pós guerra, destruição total, xixis e cocós por todo o lado, e o cachorro a dormir calmamente em cima do sofá. Decide-se que o cachorro passa a ficar na varanda onde os estragos são controláveis. Chega-se a casa ao fim do dia, abre-se a porta da varanda e sai de lá um cão histérico, extremamente carente de companhia e contacto humano. Não há tempo, nem pachorra, nem disponibilidade para aturar tanto histerismo. O cão continua na varanda. Ao princípio ladra e gane a pedir para entrar, eventualmente, acaba por desistir. Uma noite a campainha da porta toca. É uma senhora que vem perguntar se não estariam interessados em dar o cão para adopção, encontrar uma família com mais condições para o fazer feliz, porque vê o cão dia e noite, Inverno e Verão, sozinho na varanda, a ração misturada com as fezes, a tristeza estampada no olhar.
Ficção? Infelizmente, não! Esta situação e outras que tais são tão comuns que muitas pessoas nem reparam e, se não acreditam em mim, olhem à vossa volta com atenção.
Para tentar evitar estas situações, para ajudar as pessoas que pensam ter um cão mas não sabem muito bem o que implica ter um cão, estou a preparar uma pequena formação de algumas horas. Estou a pensar intitulá-la “Cãopanheirismo – Bases para uma Adopção Responsável” mas aceito sugestões. O programa está quase pronto e, em breve, o partilharei convosco.

Os maluquinhos dos animais

o saudoso Ugo


No âmbito da divulgação no Face Book de uma iniciativa que visa alertar o público para as más condições de alguns canis municipais, gerou-se uma troca de mensagens que me tem dado que pensar.
Foi assim, uma senhora escreveu que as pessoas não devem entregar os animais nos canis porque eles serão abatidos ao fim de algum tempo. Outra pessoa perguntou, então onde devem entregar os animais?
A resposta foi surpreendente: nas associações!
Nesta altura eu não me contive e intervim. Então não sabe que as associações estão sobrelotadas, que mal têm recursos para cuidar dos animais que recolheram, quanto mais cuidar de todos os animais cujos responsáveis não querem ou não podem encontrar soluções para quando vão de férias?
A resposta não se fez esperar, acompanhada por uma carga emocional fortíssima. Se considero injusto empurrar este problema para as sobrelotadas associações, então que sugestões ofereço? É que ficar de braços cruzados, sem dizer nem fazer nada é que não pode ser e, se não faço parte da solução, faço parte do problema.
Mais ainda, na opinião da dita senhora, os que abandonam os animais de companhia deviam ser tatuados na testa a informar que são maus adoptantes e ter as mãos cortadas!
Ao contrário desta senhora, eu faço parte da solução. Como tal, sei que este é um problema complexo e de enormes dimensões e que, como todos os problemas complexos e de enormes dimensões, não tem soluções simples nem imediatas.
Que é necessário tomar medidas, concordo absolutamente, mas é preciso ter cuidado ao decidir que medidas se tomam para não prejudicar em vez de ajudar.
Quando se decide encaminhar os abandonos para as associações estamos a prejudicar e explico porquê.
Se uma pessoa der ouvidos a esta senhora e, em vez de entregar o cão no canil, contactar uma associação para entregar o cão, vai receber uma resposta negativa, explicando que teriam muito gosto em ajudar mas estão sobrelotados. Se contactar outra associação, receberá a mesma resposta e, por muitas associações que contacte, a resposta será sempre a mesma.
Ao propor uma solução impraticável, esta senhora está a fazer com que os defensores do bem-estar animal percam credibilidade.
Ao sugerir que tatuem e cortem as mãos às pessoas que abandonam os animais, esta senhora está a dizer uma bacorada que ninguém está disposto a ouvir.
Consequentemente, os defensores do bem-estar animal serão mais uma vez apelidados de maluquinhos e perdem credibilidade. Ninguém nos leva a sério!
As minhas propostas: encarar os problemas com a seriedade que eles merecem, apresentar soluções exequíveis e ter uma postura calma e racional. De outra maneira, não chegamos a lado nenhum.

É já no próximo fim de semana.
Para os mais distraidos, aqui fica o programa.

AGRESSIVIDADE

Agressividade
§ O que é a agressividade nos cães?
§ Agressividade como problema comportamental

Tipos de agressividade
§ Agressividade defensiva
§ Agressividade redireccionada
§ Agressividade com pessoas/estranhos
§ Agressividade com animais (cães, gatos, etc.)

Agressividade e quadros médicos
§ Quadros médicos que propiciam agressividade
§ Medicamentos usados no tratamento de casos de agressividade
§ A procura de ajuda no veterinário

Sinais comunicativos caninos
§ Sinais de apaziguamento
§ Sinais de distanciamento
§ Supressão de sinais e consequências

Condicionamento clássico e operante
§ O que é o condicionamento clássico
§ O que é o condicionamento operante
§ Os 4 quadrantes de ensino

Uso de castigo positivo e reforço negativo na abordagem de problemas agressivos
§ Dificuldades
§ Consequências
§ Flooding
§ Learned Helplessness

Técnicas de resolução de agressividade
§ O que é o modelo A-C-C?
§ Como determinar o A e os Cs
§ Entrevista
§ Técnicas de resolução de problemas de agressividade



DOMINÂNCIA
Dominância
Conceito de dominância
Conceito de dominância no mundo dos cães
Origem do conceito de dominância

Hierarquia
Conceito de hierarquia
Tipos de hierarquias
A hierarquia nos cães

Os lobos e os cães
Origem e evolução dos cães
Semelhanças e diferenças entre cães e lobos
O lobo na sala-de-estar

Teoria da dominânica
Teoria da dominância no treino canino
Consequências no relacionamento com cães
Falhas da teoria da dominância
Ciência da aprendizagem na abordagem de casos de agressividade

As Fotos do Leão



Agradeço ao Luís e à Sónia terem proporcionado a oportunidade de partilhar convosco a beleza do Leão. Ora ligam lá se não é de cair para o lado?

Amor é...

...deixar a Spring roer um osso de borracha e encher a minha cama de pedacinhos de borracha só para ela não lamber o creme com que acabei de besuntar-lhe as patas!
Capítulo 6
A D. Maria tem uma qualidade muito importante que merece ser realçada: empatia, ela percebe instintivamente que todos os cães são o seu Prince, que todos têm as mesmas necessidades e sentimentos. Não é como alguns “donos” de cães que vemos por aí, a passear o seu cãozinho pela trela e a distribuir pontapés por todos os cães de rua que ousam aproximar-se do seu bichinho!
Sendo assim, a D. Maria socorreu a cadela e os seus filhotes com a mesma determinação com que se empenha a fazer feliz o seu Prince.
Nessa noite, a casa da D. Maria ficou mais pequena; uma cama grande para a mãe e filhos, mantas, toalhas, jornais espalhados pelo chão da cozinha. Recebeu os novos hóspedes com muito mais confiança que recebera o Prince. Afinal já é perita em cães; tem ração e desparasitantes em casa, tem o número do veterinário memorizado no telemóvel, tem alguma experiência e amor é o que não lhe falta.
Finalmente, a D. Maria senta-se no sofá da sala. Suspira. Os cães estão tratados, domem e ressonam com a barriga cheia. Sabe bem ouvir a sua respiração.
Por hoje, já está, tudo tratado. Pode ir deita-se e dormir descansada. Mas amanhã? Como é que vai ser? Não sabe. Mas a D. Maria é uma mulher metódica e sabe que não vale a pena antecipar os problemas. Levanta-se e vai para a cama. Amanhã, logo se vê.

Chique,chique!


As carraças aproveitavam o pelo espesso e comprido do nosso guerreiro para se refugiarem e alimentarem. Era fartar vilanagem!
Como para grandes males, grandes remédios, o Talibocas foi à tosquia (gentileza da tia Sara!)
O resultado está à vista; o nosso Talibocas ficou chique, chique. Até parece um lulu de luxo! Quem te viu e quem te vê, meu amigo.

Johnny, a aproximação

O Johnny já se aproxima de mim. Cheira-me e anda pelo pátio, fascinado com a bola do Leão.
Ainda não vai atrásda bola, mas já deixou de me rosnar. Devagar, devaraginho ele vai perdendo o medo...

Leão e Johnny

São os novos hóspedes da Casa.
O Leão impressiona pela sua beleza. Mais uma vez, se confirma que a riqueza genética de um chamado rafeiro pode produzir resultados de surpreendente beleza! Além do mais, prima pela originalidade; é um cão único, como nunca vi nenhum!
Estou sem máquina fotográfica, mas hei-de pedir uma foto aos donos para postar aqui.
De feitio é um cão normal; sociável, brincalhão, meigo. Gosta de correr atrás da bola e de me lamber a cara. É um prazer estar com ele!
O Johnny é um caso único para mim; um cão que não gosta de pessoas. Tem medo.
Passo por ele e ignoro-o. Fica a ver-me brincar no pátio com o Leão, curioso e receoso. Dizem-me que adora bolas, mas nem isso o convence a aproximar-se. Sempre que olho para ele, rosna-me. Não faz mal, dou-lhe tempo. O importante é que se sinta o melhor possível.
Deita-se na sua cama e rosna-me sempre que eu o espreito. Ao contrário do que eu esperava, come bem. É bom sinal!

Money for Food


Chegou-me um apelo, que li na diagonal, em que pediam ajuda monetária para comprar comida para animais. Não sei qual é a origem do apelo, penso que será nos Estados Unidos da América porque pediam um dólar por pessoa.
O que me prendeu a atenção neste apelo foi dizerem que o dinheiro é para comida, visto que não se podem dar ao luxo de proporcionar cuidados veterinários aos animais.
Esta situação choca-me! Não é que não compreenda a falta de recursos. Compreendo até bem demais!
O que me choca é a opção de salvar um maior número de animais em detrimento da qualidade de vida que proporcionam aos animais resgatados.
Cada vez mais me convenço da necessidade das associações se aperceberem da impossibilidade de salvar todos os animais em risco. São muitas dezenas de milhares!
Cada vez mais me convenço da necessidade das associações trabalharem com qualidade oferecendo aos animais que resgatam óptimas condições de vida.
Se não for para fazer felizes aqueles que conseguimos salvar, então o que é que andamos a fazer?

Pititi

A Luna tem o pelo mais claro no dorso, mas, como a minha máquina fotográfica pifou de vez, aqui fica uma imagem semelhante...
Ela chama-se Luna, é uma Yorkshire Terrier pequenina, tão pequenina que lhe chamo Pititi, Pilili, Piriri e outros nomes com muitos is.
Veio passar uns dias à Casa do Pinhal e eu tenho-me derretido com ela. É uma doçura! Deita-se muito encostada a mim e fica. Não dá trabalho nenhum. Só tem uma coisa: não suporta ficar separada de mim. Nem por um bocadinho. Ladra, gane, faz xixi… Acredito que esteja habituada a estar sempre acompanhada e é a primeira vez que se separa da família.
É curiosa com os outros cães, mas eles assustam-na, devem parecer-lhe gigantes, e refugia-se atrás das minhas pernas. Tenho-a mantido afastada dos outros, ela é tão frágil!
Para mim, que tenho uma predilecção por cães grandes, a Luna tem sido a prova que o tamanho não importa e ser mini tem as suas vantagens, oh se tem! Todo o prazer da companhia de um cão, com o mínimo de trabalho; são portáteis, comem pouco, ladram baixinho e, quando dão beijinhos, não fico com a cara e os óculos todos besuntados. Tem vantagens, sim senhor
!
Capítulo 5
Um cão, não o Prince, outro. Talvez seja uma cadela. Sim, é uma cadela, muito magra, suja, a meter o nariz nuns restos ao lado do caixote do lixo.
À medida que a D. Maria se aproxima lentamente, a cadela afasta-se, com medo.
A D. Maria compreende que a abordagem é ineficaz e dá meia volta, a caminho do emprego, não sem antes ter deixado um montinho de biscoitos para cão que trazia na mala.
Vira-se a tempo de ver a cadela devorar os biscoitos. Ah, minha querida, o teu mal é fome! Não te preocupes que eu volto com mais comida, promete a D. Maria nos seus pensamentos.
Depois de uma manhã desatenta no trabalho, sempre a pensar na cadela esfomeada, a D. Maria aproveita o curto intervalo de almoço para correr à mercearia mais próxima e comprar uma lata de patê com aspecto apetitoso.
Corre para o caixote do lixo onde vira a cadela e procura-a nas redondezas. Aventura-se por ruas estreitas, por prédios em ruínas e acaba por encontrá-la num buraco, uma toca improvisada.
- Ai, minha filha! Ai, minha querida, exclama a D. Maria ao perceber que enroscados na cadela estão um monte de cachorrinhos, muito bebés, muito pequeninos.
Abre a lata de comida e espalha-a em cima do saco de plástico, o mais perto que se consegue aproximar sem assustar a mãe.
- Ai, minha querida filha! O que é que faço contigo? Ai, suspira, enquanto volta para o emprego a correr, que já está atrasada.

Agressividade


Um excelente artigo sobre agressividade que, infelizmente, está em inglês.
Este tema vai ser profundamente debatido no seminário "Agressividade e Dominância" dos dias 26 e 27 deste mês, pelo que, o lerem o texto, ficarão com uma ideia das mensagens que serão transmitidas no seminário.
Capítulo 4
O Prince encontrou um lar onde é muito amado, a D. Maria encontrou uma nova vida; novos interesses, novos amigos, até comprou um computador para trocar mensagens e fotos do Prince com os amigos e família.
Chegou a Primavera e a vida da D. Maria florescia por todos os lados.
Encontramo-la de manhã, a chegar ao emprego, apressada, como todos os dias.
É nesta altura que algo tem de acontecer, de contrário a história corre o risco de perder o interesse. O que é que vai acontecer?
Capítulo 3
Passaram uns meses e o Prince está irreconhecível. Nada resta do destroço de cão que era. O pelo está fofo e bem cheiroso, o olhar brilhante, a cauda constantemente a abanar.
Também teriam dificuldade em reconhecer a D. Maria se a vissem. Anda mais ligeira, mais sorridente. Mostra as fotos do menino a torto e a direito e tem sempre histórias para contar; como o Prince é esperto, como é meigo, como parece compreender tudo o que ela lhe diz…
Regressa a casa numa ânsia de abraçar o Prince. Até conseguiu, no emprego, diminuir o intervalo de almoço, só para poder sair mais cedo e ir passear o seu querido Prince.
Nesses passeios, principalmente os mais longos ao fim de semana, a D. Maria encontra outras pessoas que passeiam com os cães. Enquanto os cães se cheiram, ela troca histórias com os recem conhecidos e faz amizades.
Aprende muitas coisas sobre cães, tem uma curiosidade inesgotável e quer sempre saber mais.
A D. Maria não compreende como foi possível passar toda uma vida sem conhecer a maravilha que é o amor de um cão, amar e ser amada sem condições, sem expectativas, apenas desfrutar o prazer de estar juntos.
Não, se encontrassem a D. Maria, de certeza que não a reconheceriam!
Capítulo 2
Deixámos a D. Maria com as atrapalhações habituais de que se vê numa situação nova, o banho, as pulgas e carraças, o veterinário fora de horas, o frango cozido com arroz, as mantas para fazer a cama…
Não sei se imaginam, mas eu vejo a D. Maria a perder-se de amores pelo cão. Vejo-a na loja de animais a comprar trela e coleira a condizer, uma escova para o pelo que já começa a crescer, uma cama da cor dos sofás da sala, mais uns brinquedos e guloseimas.
Pode parecer exagero, mas encontro a D. Maria a comprar uma máquina fotográfica digital só para tirar fotos ao seu menino, o seu bebé, o seu principezinho. Não é por acaso que o cão se chama Prince, ele é tratado como um príncipe e a D. Maria rejuvenesceu, encontrou um novo interesse na vida e está feliz.

Agressividade e Dominância


Já só falta um mês!

(o título fica por conta dos leitores, aceitam-se sugestões)


Capítulo 1
A D. Maria, personagem saída da minha imaginação, regressava a casa depois de um dia de trabalho. Metro, comboio, autocarro, todos a abarrotar de gente à hora de ponta, mais os sacos das compras que fizera no intervalo do almoço, as meias salpicadas de lama, o guarda-chuva, a chuva, o vento… Felizmente estava a chegar, só mais dois quarteirões e estaria em casa, descalçaria os sapatos molhados, atiraria os sacos para a bancada da cozinha, despiria a roupa húmida e entraria numa banheira cheia de água quente. Só mais dois quarteirões…
Não sei se por acaso ou por acção de algum deus menos distraído, o olhar da D. Maria desviou-se das poças de chuva do passeio e pousou num ser desgraçado que se encolhia e tremia de frio num canteiro sem flores. Um cão! Ou melhor, o que restava de um cão. A pele, sem pelo, mostrava todos os ossos, os olhos remelosos fitavam a D. Maria como que se despede da vida.
Ora, a D. Maria nunca tinha convivido com cães, em criança insistira com os pais para que lhe dessem um, mas sem sucesso, e, naquele momento, a única coisa que queria era chegar a casa e meter-se num banho.
Talvez fosse por se ver confrontada com um ser que dava todos os sinais de se sentir ainda pior que ela própria ou talvez fosse mesmo por acção divina, o certo é que o milagre aconteceu.
A D. Maria segurou o guarda-chuva entre o pescoço e o ombro, transferiu as compras de um saco para os outros e, com o saco vazio, meio receosa, meio a sentir que não sabia o que estava a fazer, pegou no cão encharcado, encostou-o ao peito e seguiu para casa.

Cão como eu gosto


- Gosto tanto deste cão! Ele é tão maravilhoso…
- Ora, tu gostas de todos os cães, dizes sempre a mesma coisa.
É verdade, gosto de todos. Porque não haveria de gostar?
Nunca conheci um cão que fosse maldoso, rancoroso, sacana, filho da mãe… Não há como não gostar!
Mas não gosto de todos da mesma maneira, isso não. Cada cão é diferente e encanta-me de modo diferente. Costumo dividi-los em três categorias: os bons, os muito bons e os excepcionalmente bons.
O Zeus é um dos poucos que considero excepcionais.
Gostava que a minha máquina fotográfica funcionasse para vos mostrar como é lindíssimo! No entanto, não é pela beleza física que me conquista. É pelo comportamento exemplar, pela calma, pela obediência, pelo modo como se relaciona com os outros cães e comigo.
Quando chegou, sentiu-se logo em casa, não estranhou, não chorou a ausência dos “donos”. Deitou-se no chão da cozinha e ficou a arfar com o calor.
Ele é tão calmo que até a Girassol o aceita muito bem e desde o primeiro dia que o deixa entrar no meu quarto.
Sinto-me perfeitamente tranquila com ele; sei que não vai entrar em brigas.
De vez em quando, pousa a patorra em cima de mim e diz-me: - Dá-me mimos, sim?
- Claro que sim, meu amor, claro que dou!

A Herdade

foto antiga, o meu amado Google e o Manuel a farejar algo que lhes despertou o interesse

Quando a rua acaba começa um caminho de terra batida, rodeado de sebes de amoreiras, espinheiros, muros de pedra. À esquerda e à direita, há campos, vinhas, pinheiros, uma pereira, flores. A minha amiga Isabela chama-lhe a Herdade.
O nome pegou e, ao fim do dia, reúno os cães e digo-lhes, vamos à Herdade! Também podia dizer, vamos às carraças! Mas prefiro manter uma atitude positiva e gosto de imaginar-me latifundiária, como se todos os campos fossem meus, desde o fim da rua até ao mar lá ao fundo.
Na Herdade há pássaros, borboletas, coelhos, cobras e, de vez em quando, aparece um ou outro gato mais aventureiro.
De todos os cães, o Talibocas é o mais caçador. Desaparece entre os espinheiros onde me é impossível segui-lo, depois regressa feliz da vida, a abanar a cauda. Por vezes, traz manchas de sangue e arranhões no focinho, nem quero imaginar o que se passa, limpo-lhe o sangue, desinfecto os arranhões e peço aos deuses que sejam clementes. O que é que posso fazer?
Ontem, não tive como ignorar o que se passou. O Talibocas desapareceu entre os espinheiros, como habitualmente, mas alguma coisa me deixou apreensiva e decidi encurtar o passeio e voltei atrás, chamando por ele.
Apareceu com um coelho bebé na boca. O coelho estava morto, o Talibocas, feliz.
Deitou-se no meio de um tufo de ervas altas a comer o coelho. Eu fiquei afastada, gelada, ocupada em manter os outros cães perto de mim, sem saber que mais fazer.
Regressámos a casa, por fim; os cães felizes como sempre, eu preocupada. Que faço? Devo levar o Talibocas de trela?
Sei que aqui não há maldade, apenas instinto, mas não gosto! Não gosto mesmo!

Agressividade e Dominância (as minhas histórias)



Sobre dominância há uma história que me contaram e que nunca me esqueci. Impressionou-me imenso pela crueldade e riqueza de pormenores, aos quais vos pouparei.
Foi há muitos, muitos anos, ainda o Cosmos era vivo. Tinha encomendado a um marceneiro umas arcas com rodas para guardar roupa debaixo da cama e ele foi entregá-las a minha casa.
O Cosmos recebeu o marceneiro com a alegria que reservava para as visitas e a conversa virou para o tema dos cães que são grandes amigos, companheiros de vida. Disse que o Cosmos já era velhote e ele também tinha um cão velhote.
- Veja lá, minha senhora, que me propuseram trocar o meu velhote por um cão novo. Como se fosse uma cadeira! Como se eu fosse capaz!
Concordei calorosamente. Talvez por esse clima de concordância, a história que me contou a seguir deixou-me tão impressionada que ainda hoje sinto um nó no estômago ao recordar.
Um cão dele mordera-lhe e o senhor reagira batendo no cão. Bateu e bateu e bateu, tanto que o cão ficou moribundo e foi o filho dele que acabou de matar o cão para lhe poupar aos últimos sofrimentos.
Este é um claro caso de dominância, não da parte do cão, nem sei em que circunstância mordeu ao “dono”, mas da parte do marceneiro que lhe deu uma tareia fatal porque “não admito que um cão meu me morda”!

Há uns meses, o Manuel mordeu-me. Foi uma dentada forte que me deixou a ver estrelas e andei com a mão pendurada durante uma semana. É bom que fique claro que o Manuel não é um cão agressivo, aliás é extremamente sociável, e quem o conhece sabe disso. Mas, na altura, ele estava zangado porque o Zorba estava no lugar dele. Rosnou ao Zorba e eu intervim. Levei uma dentada!
Contei a história a alguns amigos que reagiram de uma maneira que me surpreendeu:
- Mas é claro que lhe bateste!
- Esse cão precisa de apanhar!
Porquê? Não percebo. O que é que ia adiantar eu bater ao Manuel depois de ele me morder? O que é que ia conseguir com isso? Levar outra dentada?
Claramente o erro foi meu; intervim da maneira errada. Quando o Manuel me mordeu nem sequer tinha consciência que era a mim que estava a morder.
Aprendi com o meu erro. Agora estou mais atenta aos sinais, intervenho mais cedo e não uso as mãos!
Agora compreendo melhor os cães e espero, no futuro, compreender ainda melhor.
Espero ansiosa pelo próximo seminário para aprender mais sobre estes temas com a Cláudia porque, para pessoas que, como eu, lidam com cães, o melhor é saber o mais possível sobre eles.

Agility em Belém



Ontem passei um dia maravilhoso a assistir a um campeonato de agility. Nunca tinha visto ao vivo e adorei o espectáculo.
É absolutamente espantoso o nível de atenção que os cães prestam ao condutor da prova. Além disso, é sempre um prazer ver cães a correr e a saltar!
Apesar da dificuldade da prova e da exigência técnica (concorriam para o mais elevado escalão) foi bonito ver que a boa relação entre cães e condutores não era afectada pelos resultados e que, no final das provas, os cães eram devidamente recompensados pelo esforço com muitos mimos e com os brinquedos favoritos.
Para mim, isso é o mais importante, que as pessoas e cães pratiquem este desporto com prazer. Uma boa relação de cooperação entre cão e condutor é muito mais valiosa que qualquer medalha ou taça.

Agressividade e Dominância - Programa

Agressividade e Dominância são os temas que serão abordados no novo seminário organizado pela Casa do Pinhal, que será realizado nos dias 26 e 27 de Junho em Lisboa.
Eis o programa:

AGRESSIVIDADE


Agressividade
O que é a agressividade nos cães?
Agressividade como problema comportamental

Tipos de agressividade
Agressividade defensiva
Agressividade redireccionada
Agressividade com pessoas/estranhos
Agressividade com animais (cães, gatos, etc.)

Agressividade e quadros médicos
Quadros médicos que propiciam agressividade
Medicamentos usados no tratamento de casos de agressividade
A procura de ajuda no veterinário

Sinais comunicativos caninos
Sinais de apaziguamento
Sinais de distanciamento
Supressão de sinais e consequências

Condicionamento clássico e operante
O que é o condicionamento clássico
O que é o condicionamento operante
Os 4 quadrantes de ensino

Uso de castigo positivo e reforço negativo na abordagem de problemas agressivos
Dificuldades
Consequências
Flooding
Learned Helplessness

Técnicas de resolução de agressividade
O que é o modelo A-C-C?
Como determinar o A e os Cs
Entrevista
Técnicas de resolução de problemas de agressividade



DOMINÂNCIA


Dominância
Conceito de dominância
Conceito de dominância no mundo dos cães
Origem do conceito de dominância

Hierarquia
Conceito de hierarquia
Tipos de hierarquias
A hierarquia nos cães

Os lobos e os cães
Origem e evolução dos cães
Semelhanças e diferenças entre cães e lobos
O lobo na sala-de-estar

Teoria da dominânica
Teoria da dominância no treino canino
Consequências no relacionamento com cães
Falhas da teoria da dominância
Ciência da aprendizagem na abordagem de casos de agressividade

Dono de Raça


Os Números (parte 2)


Querem falar de dignidade? Querem mesmo falar de dignidade?
Onde é que está a dignidade? Olhem para a realidade, para os cães que vivem acorrentados, que vivem nas ruas, que morrem à fome, de doenças, atropelados… Onde está a dignidade dessas vidas?
Acham bem um cão fugir atrás de uma cadela com o cio, correndo o risco de ser atropelado, envolvendo-se em lutas, ficando ferido? Pois, mas está “inteiro”! Inteiro? Ficou sem um bocado de uma orelha, tem um lanho num olho, coxeia de uma pata… Está inteiro?
Cães que vivem em abrigos anos e anos, por vezes, toda uma vida. Onde está a dignidade?
A esterilização/castração não é uma forma das pessoas que dedicam a vida aos animais terem menos trabalho. Não é um lobby para enriquecimento dos médicos veterinários.
É a forma de proporcionar aos cães e gatos maior qualidade de vida. É a única forma de combater o flagelo do excesso de população de cães e gatos.
Tudo me parece tão óbvio que me falham as forças para argumentar mais… No entanto, se subsistirem questões, por favor, sintam-se à vontade para as colocar. Terei todo o gosto em tentar responder.

Os Números (parte 1)


Sou membro de um grupo chamado Animais em Portugal que reúne pessoas interessadas em ajudar animais em risco. Escusado será dizer que os apelos são mais que muitos e vêem de norte a sul do país, incluindo as regiões autónomas dos Açores e Madeira.
A grande maioria dos membros são pessoas com elevados padrões de qualidade em relação ao modo como os animais devem ser tratados, mas, em centenas de pessoas, encontram-se sempre uns… como hei-de dizer?
Eu explico: há algum tempo surgiu uma discussão em que alguns “membros” se insurgiam contra a “mania” que nós (todos os outros membros) temos de aconselhar e praticar a esterilização/castração de cães e gatos.
Que as operações são contra natura, traumáticas para os animais e que se nós gostássemos realmente dos animais dávamo-nos ao trabalho de separar as fêmeas dos machos na altura do cio. No fundo, a ideia era que os chamados “amigos dos animais” praticavam a esterilização/castração para não terem a maçada de controlar os animais durante o cio e, também, outra ideia singular, enriquecer os veterinários!
Achei estes argumentos tão tolos, tão desfasados da realidade que nem me dei ao incómodo de participar na discussão. Nem teria voltado a pensar no assunto, não fora ter-me deparado com os mesmos argumentos nuns comentários que fizeram a um texto que uma associação de protecção de animais publicou no Facebook.
Que os cães e gatos nasceram para viver livre e inteiros, que a castração lhes retira vivacidade e dignidade, que provoca obesidade, que, se gostassem mesmo de animais, não os enclausurariam em apartamentos, e por aí fora.
Posso responder que aqui em casa vivem duas cadelas e três cães, todos castrados/esterilizados e felizes. Se acham que são obesos, que vivem uma vida indigna ou que não têm vivacidade e energia, venham cá conhecê-los! Eu mostro!
Posso responder que o Manuel, a Girassol, o Google e tantos outros, antes de viverem aqui, viviam num apartamento e que eram mais felizes a viver comigo num apartamento que nas ruas ou nas associações de onde vieram.
Mas não quero dar respostas pontuais. Acho que é necessário encarar o problema de frente, afinal de que é que estamos a falar? De cães e gatos, é claro. Mas quantos?
Li um artigo que estimava em cerca de 11000 os cães e gatos recolhidos em associações de protecção animal e centros de recolha oficiais, vulgo, canis municipais. A estes acrescem os cães e gatos errantes, cujo número não está contabilizado mas não será exagero considerar que são cerca de quatro vezes mais. Portanto, cerca de 44000 animais errantes.
Não estão incluídos os animais “com dono” que é uma expressão que detesto; não sou dona de nenhum animal, sou responsável que é uma coisa completamente diferente!
Esses são os que vivem em apartamentos, em quintas, em varandas, em marquises, acorrentados a casotas, acorrentados a qualquer lado sem sequer uma casota para abrigo… Enfim, uma infinidade de situações.
(continua…)

O Cão da Vizinha

O meu vizinho, aquele que tinha um cão que sofria com dores, mudou de casa. O cão foi eutanasiado. Ainda bem, que o sofrimento era muito!
Entretanto, veio outra pessoa morar para aqui. É uma mulher jovem que decidiu sair da cidade e vir viver em contacto com a natureza. Sinto bastantes afinidades com ela.
Tenho muita sorte em ter uma vizinha assim, que também adora animais, e que me mima imenso, oferece-me flores e chocolates. Eu retribuo com sopa, passeios no campo e partilhando a minha ignorância sobre hortas… Faço o que posso!
Ela vive com um cão, talvez perdigueiro, que é maravilhoso! Tem os olhos mais doces que já vi! Nota-se que teve uma vida difícil, tem as patas marcadas por cicatrizes e penso que terá sido cão de caçador; mas, aos poucos, vai recuperando a confiança nas pessoas e está cada vez mais “saído da casca”.
De vez em quando, a minha vizinha tem de se ausentar em trabalho e eu ganho a oportunidade de ficar com o cão. Agora ele está lá fora, no pátio, com o Manuel e o Talibocas, a marcar o território e a destruir os canteiros… Mais logo, havemos de ir dar um grande passeio pelo campo.
"Sempre que um cão sai das minhas mãos para uma nova família, desejo que o tratem tão bem, ou ainda melhor, que eu. Desejo que compreendam que o cão não entra na suas vidas para os fazer felizes, mas, inversamente, a ideia é eles fazerem feliz o cão."